O que é Streaming Telemetry? Guia Técnico de Monitoramento

Streaming Telemetry

Durante três décadas, o protocolo SNMP (Simple Network Management Protocol) foi o padrão de fato para monitoramento de redes. Ele serviu bem ao seu propósito em uma era de tráfego estático e mudanças lentas. No entanto, na era das redes definidas por software (SDN) e da automação em hiperescala, confiar no SNMP é como tentar assistir a um filme em 4K através de capturas de tela enviadas por fax a cada 5 minutos. O Streaming Telemetry surge como a mudança de paradigma necessária, substituindo o modelo de “pergunta e resposta” (Polling) por um fluxo contínuo e granular de dados em tempo real.

Para engenheiros de rede e arquitetos de observabilidade, a transição para a telemetria por streaming não é apenas uma atualização de ferramenta; é uma reengenharia da visibilidade. Ela permite detectar microbursts que duram milissegundos, correlacionar eventos de roteamento instantaneamente e alimentar algoritmos de AIOps com dados de alta fidelidade que o SNMP jamais conseguiria entregar.

 

O Fim da Era do Polling

O modelo tradicional de monitoramento (SNMP/CLI) é baseado em Pull. O servidor de monitoramento pergunta ao roteador: “Qual o uso da CPU?”. O roteador para o que está fazendo, processa a requisição e responde. Repita isso para milhares de interfaces e métricas a cada 5 ou 10 minutos.

Esse modelo possui limitações estruturais graves para redes modernas:

  • Pontos Cegos Temporais: Se o polling ocorre a cada 5 minutos, você é cego para o que acontece nos 4 minutos e 59 segundos de intervalo. Picos de tráfego que derrubam aplicações sensíveis passam despercebidos.
  • Overhead na CPU do Dispositivo: O processamento de SNMP é caro para o plano de controle (Control Plane) do roteador. Aumentar a frequência do polling pode travar o equipamento que você está tentando monitorar.
  • Dados Não Estruturados: O parsing de CLI (Screen Scraping) é frágil e quebra a cada atualização de firmware.

 

O Que é Streaming Telemetry?

O Streaming Telemetry inverte a lógica. Ele utiliza um modelo de Push. O dispositivo de rede (roteador, switch, firewall) é configurado para transmitir dados automaticamente para um coletor assim que eles mudam ou em intervalos extremamente curtos (ex: sub-segundos).

Tecnicamente, isso é viabilizado por uma tríade de tecnologias modernas que garantem eficiência e estrutura:

 

1. Modelos de Dados (YANG)

Em vez de depender de MIBs opacas, a telemetria utiliza modelos YANG (Yet Another Next Generation) para estruturar os dados. Isso garante que a definição de “interface” ou “rota BGP” seja consistente e legível por máquina, independentemente do fabricante.

 

2. Transporte Eficiente (gRPC / TCP / UDP)

Esqueça o UDP não confiável do SNMP. A telemetria moderna frequentemente utiliza gRPC sobre HTTP/2, permitindo conexões persistentes, criptografadas e bidirecionais entre o dispositivo e o coletor. Isso elimina o overhead de estabelecer novas conexões a cada envio.

 

3. Codificação Otimizada (GPB / JSON)

Os dados são serializados. Embora JSON seja legível por humanos, o padrão de alta performance é o GPB (Google Protocol Buffers). O GPB codifica os dados em formato binário compacto, reduzindo drasticamente o consumo de largura de banda e o esforço de processamento (CPU) tanto no roteador quanto no servidor de ingestão.

 

Model-Driven Telemetry

A implementação mais robusta dessa tecnologia é chamada de Model-Driven Telemetry (MDT). Nela, o engenheiro “assina” (Subscribe) caminhos específicos do modelo de dados YANG.

Existem dois tipos principais de assinatura:

  • On-Change (Por Evento): O dispositivo envia dados apenas quando o estado muda (ex: uma interface cai, uma rota OSPF é alterada). Latência zero na notificação de falhas.
  • Cadence-Based (Periódico): O dispositivo envia contadores (ex: bytes transmitidos, erros de CRC) em intervalos fixos, mas com frequência muito maior que o SNMP (ex: a cada 10 ou 30 segundos).

Essa abordagem permite uma granularidade fina. Você pode monitorar o estado das interfaces críticas em tempo real (On-Change) enquanto coleta estatísticas de temperatura a cada minuto, otimizando o uso da rede de gerenciamento.

 

A Arquitetura de Coleta: TIG, ELK e Além

Implementar Streaming Telemetry exige uma stack de telemetria preparada para ingestão massiva de dados (Big Data). O servidor de monitoramento tradicional (como um Zabbix) pode não suportar o volume de escritas por segundo.

Arquiteturas comuns incluem:

  • Coletores: Telegraf, Pipeline do Cisco ou coletores nativos de vendors.
  • Time Series Database (TSDB): InfluxDB, Prometheus ou VictoriaMetrics para armazenar o histórico de métricas.
  • Visualização: Grafana é o padrão ouro para visualizar streams de dados em tempo real.

Grandes players como a Cisco e a Juniper lideram esse movimento, integrando MDT em seus sistemas operacionais (IOS XE, Junos), permitindo que a infraestrutura se comporte como uma aplicação moderna que exporta métricas nativamente.

 

Benefícios para a Operação (NOC/SRE)

A adoção do Streaming Telemetry impacta diretamente os KPIs operacionais:

Redução do MTTD (Mean Time to Detect):
Como os dados são enviados no momento da mudança de estado, o NOC sabe da queda de um link segundos antes de qualquer sistema de polling perceber. Dessa forma, o MTTD pode ser reduzido drasticamente.

Visibilidade de Microbursts:
Em redes financeiras ou de Data Center, rajadas de tráfego que duram milissegundos podem causar descarte de pacotes por buffer overflow. O SNMP, tirando médias de 5 minutos, “suaviza” esse pico e esconde o problema. A telemetria revela a verdadeira natureza do tráfego de rede.

Automação de Loop Fechado:
Com dados confiáveis e estruturados em tempo real, é possível implementar automação. Se a telemetria indica degradação de performance em um link, um script pode automaticamente desviar o tráfego via engenharia de tráfego (SR-MPLS) sem intervenção humana.

 
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Conclusão

O Streaming Telemetry não é apenas uma “maneira mais rápida de fazer SNMP”. É a fundação necessária para as redes autônomas e para a verdadeira visibilidade em ambientes de nuvem híbrida. Continuar dependendo de polling é aceitar operar com uma venda nos olhos durante os momentos mais críticos de instabilidade.

Para gestores de TI, a mensagem é clara: o investimento na modernização do monitoramento de rede para suportar telemetria não é luxo, é o requisito básico para garantir a performance das aplicações que sustentam o negócio.

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Trabalho há mais de 10 anos no mercado B2B de tecnologia e hoje atuo como líder de um time de Business Intelligence, responsável por entregar projetos que lidam com pipelines completos de dados: desde a extração e coleta até o tratamento e disponibilização para as áreas de negócio com data visualization.

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